HELDER RAMOS


Helder Ramos nasceu em Toronto de pais Portugueses (da Extremadura).
É actor, encenador, educador, activista social e programador/organizador de iniciativas culturais.
Escreve e coordena a Página Voxnova/página Jovem para o semanário Sol Português.

Obras:

  • Berciberia (2 actos)
  • Emergência (2 actos)
  • Tiny Tuna Time (1 acto)
  • Tudo em Família (1 acto)
  • O Nosso Baile (1953-1978)
  • Do Re Mi Pessoa (1 acto)
  • Tem publicadas diversas obras de teatro infantil, em português e inglês"


    Saiba mais sobre:

  • HELDER RAMOS





    DO RE MI PESSOA


    O meu nome é Dó. Só Dó.

    Se me dessem mais nomes, como Ré ou Mi e por aí fora, diziam eles, os meus pais, perdia a graça. Deram-me esse nome, os meus pais, porque gostavam muito de música, e não se preocuparam muito com as consequências de me chamarem Dó. Os miúdos, pequenos, da primária, diziam eles, os meus pais, não sabem a priori a escala musical e não me dariam problemas. E mais tarde, quando já fosse mais crescido, na secundária, aí já podia me defender por mim próprio.

    A minha história não é única, nos dias de hoje, pelo menos. Sou filho de Portugueses que imigraram para o Canadá. Alguns afirmam que, por isso, sou Português, e mais nada. Outros dizem que sou apenas descendente de Portugueses. Outros dizem que quando estou no Canadá, sou Português, e quando estou em Portugal, sou do Canadá. Outros que em Portugal sou Português e no Canadá sou Canadiano, outros diriam Canadense.

    E até, dizem alguns, como Português, ou descendente de Portugueses, ou Português no Canadá ou Canadiano ou Canadense em Portugal, sou assim um parente de Neptuno, rei do mundo sub-marinho e nome de planeta que rege o signo astrológico Peixes que, aliás, é o signo de Portugal, e foi também o signo desse expoente máximo do Português, o Infante Dom Henrique. O signo Peixes define o sonhador, e a morte, o que se vê, por exemplo, nos Portugueses, que correm o mundo inteiro como escolas de peixes, só para se juntaram lá nos extremos e, depois, deixarem-se de falar...e o fado, que chora da dor, do escuro, da morte e das profundezas...

    Sou, digamos, oriundo das profundezas do Luso, porque, afinal, porquê me chamarem Luso-descendente. Ou, pelo menos, sou tão Luso-descendente como também sou visigo-descendente, ou romano-descendente ou, porque não, até mustafo-descendente. Dizem eles, esses alguns, esses outros...

    Eu digo nada, ou o menos possível, caso esteja errado. Eu não gosto de errar. Dizem que errar é normal, que é humano, e que não se aprende sem cometer erros. Eu digo nada. Acho que é um desperdício errar.É um desperdício de tempo, de voz, de pensamentos...é um desperdício, sobretudo, de palavras. Quem erra, depois berra. Ora, se Deus...

    V.O...Ahem...

    ...Se a Deusa nos desse uma quantia limitada de palavras, se precisássemos de pilhas para emitir palavras, acabavam-se as codrilhisses, as bisbilhotices, os berros e os erros. Pensávamos sempre duas vezes antes de abrir a boca.

    Quando estou em Portugal uso ainda menos palavras. Já há lá um excesso de palavras, fala-se muito, e diz-se...eu, como dizia, digo nada. E para complicar ainda mais as coisas, para aumentar o excesso de palavras, em Portugal parece ser de rigueur usar também palavras estrangeiras à mistura. Isto é assim; no Canadá, como talvez noutro pais qualquer de acolhimento a imigrantes Portugueses, faz-se um bicho de sete cabeças do saber falar o bom Português. Está tudo sempre a tentar superar o próximo no uso de palavras caras, por vezes até inventam palavras, de modo a assegurar um maior domínio, em relação ao vizinho, sobre a língua Portuguesa, que, diga-se de passagem, e com o vosso perdão, é uma verdadeira puta. Porquê? Porque para se falar bem Português, pelo menos hoje, em Portugal, é essencial falar bem o Inglês, o Francês, ou qualquer outra língua, e quando não se sabe uma palavra em Português, espeta-se-lhe com uma palavra estrangeira e, já está; Respeito de tudo, e de todos. É entre a diáspora que se fala bem Português, julgo, é lá que evolui a língua Portuguesa, porque é lá, ou cá, que se faz um esforço para falar bem Português.

    Há anos que não voltava a Portugal, não sei bem porquê, além de me apetecer voltar, não o fiz. Fui inventando desculpas, umas vezes foi por falta de tempo, claro, entende-se, estamos sempre a trabalhar, um imigrante sem trabalho é…e outras vezes foi por falta de cacau, claro, isto nunca se admite publicamente, não fica bem a um imigrante voltar sem tostão, sem automóvel e sem esposa, se não sou degenerado, não convém passar por tal.

    É que, há algum tempo, percebi que: quanto mais não, mais sim, quanto mais se foge, mais se é apanhado. Quanto mais eu dizia que as opiniões dos outros não me incomodavam, mais eu tinha que justificar o porquê disso, mais me esforçava para fazê-lo, e mais incomodado ficava. Não queria acreditar no que diziam de mim.

    Acreditar em quê? Ou melhor, em quem? Será possível acreditar na mensagem sem acreditar no mensageiro? Será possível haver uma ideia sem ser necessário existir um homem ou uma mulher para a ter? Não acho difícil acreditar, não sou particularmente cínico. Mas suponho que há sempre outro lado, outro motivo, e que este está sempre em oposição ao meu, ao ponto de eu facilmente imaginar o mundo sem mim. Ou, pelo menos, imagino que esse outros facilmente imaginam um mundo sem mim.

    Isto é assim; há coisas que nunca aconteceram mas que não deixaram de acontecer na mesma. Aconteça o que acontecer, é sempre a única coisa que aconteceu, em dado momento. Em prática, não existem segundas vias. As opções são uma ilusão...

    Não, não é isso, mas é quase.

    (…)"

     

    Excerto de Do Re Mi Pessoa (Outono 2000)

    Do Re Mi Pessoa teve estreia mundial a 1 de Novembro, 2000, no Espace Kiron, Paris, durante o 9°Festival de Teatro Português de França, coordenado por Carlos Perreira e Sylvie Crespo da Coordenação das Colectividades Portuguesas de França.