DA MADEIRA AO CANADA

 

Alberto Vieira*

 

A comunidade portuguesa no Canadá, que assenta fundamentalmente numa forte presença açoriana, tem também nos madeirenses um grupo activo que se evidencia desde 1963 a partir da Casa da Madeira Community Centre.

 

Conhecer a actualidade da vivência portuguesa no Canadá e de modo especial a madeirense, implica um recuo às origens desse movimento que se iniciou no século XV com a aventura de madeirenses e açorianos na busca das terras ocidentais e depois se consolidou na rota de pesca do bacalhau.

 

Os Portugueses no Canadá. Da memória histórica à actualidade

 

A presença portuguesa no Canadá não é do nosso século. A História refere-nos uma longa tradição que vincula o português, ilhéu ou não, a este mundo ocidental desde a segunda metade do século XV. Aliás, Jaime Cortesão com base em Bartolomeu de las Casas afirma peremptoriamente que foi o madeirense Diogo de Teive com Pedro de Velazco quem descobriu a Terra Nova em 1452 na sua segunda viagem, que no regresso, o levou ao encontro das ilhas de Flores e Corvo. Por outro lado Gaspar Frutuoso refere que. por volta de 1472. João Vaz Corte Real teria descoberto a "Terra Nova dos Bacalhaus" numa viagem organizada de parceria com Álvaro Martins Homem. O Cartógrafo João Vaz Dourado, no século XVI, corrobora isso e chama a uma extensão da costa, a norte e leste de Terra Nova, de terra de João Vaz. Por outro lado o globo de Gemma Frisius de 1537 refere entre o continente Árctico e o Canadá o "estreito dos três irmãos" numa alusão aos Corte Reais.

Em 1487 mais um madeirense, José Afonso do Estreito, em parceria com Fernão Dulmo encontra-se noutra tentativa de descoberta de terra firme a ocidente. A estes segue-se João Fernandes o lavrador, da Ilha Terceira, que surge no mapa de Cantino de 1502 e de Jorge Reinel de 1519 surge a Gronelândia como a terra do lavrador. Depois foi a vez dos irmãos Gaspar e Miguel Corte Real em 1499 e 1502. A eles atribuem-se três viagens, sendo a terceira fatídica para Gaspar Corte Real que se perdeu e de que restaria apenas como testemunho a Pedra de Dighton em Massachussetts.

Para a historiografia inglesa e canadiana o grande descobridor do Canadá foi John Cabot entre 1497 e 1498, um italiano ao serviço de Henrique VII de Inglaterra. De acordo com essa tradição o barco Mathew chefiado por J. Cabot aportou a 24 de Junho de 1497 a Terra Nova, dois dias após da sua partida de Bristol. É esta a data oficial do descobrimento do Canadá que terá o seu quinto centenário no presente ano, perante o olhar complacente da comunidade portuguesa que se sente incapaz em fazer vingar o anterior empenho dos seus antepassados.

Os bancos do Bacalhau continuaram a ser por muito tempo um domínio de intervenção directa dos pescadores portugueses que assim conseguiram chegar à mão de todos nós o "fiel amigo". Traçado o percurso o reconhecimento da costa americana prolongou-se por todo o século XVI, partilhado por ingleses, franceses, castelhanos.

Até 1953, altura em que se iniciou a emigração organizada de portugueses para o Canadá esta não ficou fora dos destinos dos portugueses. A rota do bacalhau ganhou alguma familiaridade nestas paragens e conduziu à presença permanente de alguns. Os primeiros portugueses que se fixaram no Canadá surgem já no século XVII. São eles Jean Rodrigues e Pierre da Sylva de Lisboa e Martin Pierre de Braga. O primeiro açoriano de apelido Miranda surge em 1680. O primeiro madeirense terá sido Francis Silva (1841-1920) que surge em Halifax a partir de 1861 nos registos da Igreja Baptista de Hantsport. Esta situação levou David Higs a afirmar que o mesmo terá saído da ilha entre 1848 e 1849, enquadrado no grupo de adeptos do Rev. Kalley, perseguidos pelo estado e ira popular. Este é considerado um dos mais ilustres portugueses que aportaram ao Canadá no século XIX.

O facto de Francis Silva ter feito 22 e sete murais e deste património ter sido acarinhado pela Nova Scotia Art Gallery, que entre 25 de Março e 10 de Maio de 1982 organizou uma magnifica exposição, manteve a sua memória e o mérito da sua obra para a posteridade. A sua obra de cariz "naif" apresenta segundo David Higs inúmeras alusões à ilha. O universo insular deste pintor é dominado pelo mar. O basalto, as colinas íngremes da ilha fazem parte das fixações pictóricas deste nosso espoliado por força das suas crenças religiosas.

Facto igual, em termos de importância artística só viemos a encontrar na presente centúria com Alberto de Castro(1952-1995), um pintor de renome na actualidade que foi vencido pela "Aids" e que ficou imortalizado na sua obra pictórica tão característica.

A presença portuguesa no Canadá revive-se nesta memória do passado e nos movimentos dos anos cinquenta que a consolidaram e atribuíram-lhe um lugar de relevo na sociedade canadiana. O português venceu todas as resistências conseguiu singrar nesta sociedade através duma dupla orientação de sua cidadania. A capacidade de realização e sacrifício fizeram desta comunidade uma referência rara no multiculturalismo que deu origem ao actual Canadá.


*Natural da Madeira, Alberto Vieira é professor universitário, escritor e investigador com vasta obra publicada