MANUEL CARVALHO


Manuel Carvalho nasceu em Cicouro, Miranda do Douro, em 1946. Iniciou-se nas letras em Leiria, no semanário "A Voz do Domingo(Suplemento literário "Arrancada"). Em 1979, alcançou o 2° Prémio num concurso de contos do Diário Popular de Lisboa. Radicou-se em Montreal, no Canadá, em 1980. Organizou os Jogos Florais Luso-Canadianos(1983,1985) e um Concurso de Quadras (2016). É um dos coordenadores da Biblioteca José d'Almansor - Universidade dos Tempos Livres(Montreal) Tem colaboração espalhada por diversos jornais e revistas do Canadá, França, Estados Unidos e Portugal. É autor dos livros "Saga"(1989), "Um poeta no paraíso"(1994) "Parc du Portugal"(1997) e "À beira-Main"(2003), "Rostos, Olhares e Memória"(2012), "Rostos, Olhares e Identidade"(2013), "O homem que falava com as flores"(2015), "Ti Vida"(2016). É coordenador da revista virtual "Satúrnia - Letras e Estudos Luso-Canadianos

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OBRA INTEGRAL DO AUTOR




TI PISCO



Dia medonho, aquele. Glacial, parado, cinzento, a noite a estender-se dia dentro ao encontro de outra noite.

Chico Faleiro pousou a tesoura de podar sobre um molho de vides e pôs-se a assoprar os dedos enregelados. As baforadas saíam-lhe da boca gordas como vómitos de locomotiva. Com as costas da mão, varreu as lâminas de gelo coalhadas nas sobrancelhas e nas pestanas e pôs-se a avaliar o trabalho feito. Não conseguia enxergar mais do que dois metros de profundidade ao seu redor, mas conhecia aquela vinha como as palmas das suas mãos, gabava-se de conhecer as cepas uma a uma, e sorriu satisfeito. Mais uma jorna e teria a poda feita.

Com as mãos engadanhadas, sacou o relógio da algibeira: cinco horas da tarde.

- Chega por hoje - monologou.

Lá em baixo, junto ao ribeiro, o jumento desatou a zurrar. Um zurrar que se esfrangalhava em mil ecos contra a muralha de nevoeiro, cada vez mais cerrado com a vizinhança da noite.

- Àquele já lhe cheira a palha.

O animal, mal o pressentiu, arrebitou as orelhas e tornou a zurrar mais forte.

- Tás a morrer por ir para casa, não é? Também eu…tá um tempo de lobos.

Albardou o animal, soltou-o do tronco do olmo e, de um salto, escarranchou-se-lhe no lombo.

-Àla.

O jumento avançava de cabeça baixa, guiado pelo instinto. O caminho era uma fita sinuosa que se desdobrava mesmo à frente deles enquantp a cerração se rasgava só para os deixar passar, para logo dissipar todas as marcas da violação. Espaçadamente, vozes, vindas sabe-se lá de onde, ficavam a retinir por ali.

Chico Faleiro, olhos apertados, protegidos pelo boné, as garras do frio a entrarem por todos os buracos da roupa, cogitava na vida, o que era frio sobre frio. O dinheiro apurado com a venda das batatas nem por sombras cobria a despesa feita. Produção em excesso, arengavam na telefonia. O raio que os partisse. Farto de lérias estava ele. Bem aguentara o raio das batatas na arrecadação, com uma fezada que o preço subisse mas qual quê, ainda baixara mais. E muita sorte tivera ele. Muitos nem tinham a quem vendê-las. Ficavam a apodrecer. Trabalho a apodrecer, a vida a apodrecer.

Subitamente, um ruído estranho, como que uma restolhada, furtou-o aos seus pensamentos. O que seria? Estacou o jumento. Pôs-se a perscrutar a névoa. Agora sim, um gemido humano, nítido, soltou-se mesmo ali ao lado.

Saltou, lesto, da albarda.

- Quem tá aí? O que há?

- Pel'amor de Deus, acudam-me. Ai que eu morro.

O vulto rastejante começou a focar-se no nevoeiro.

- Quem é…quem tá aí?

- Sou eu..acode-me, Chico…'tou a morrer.

O ti Luís Pisco caiu-lhe nos braços, pesadamente. Tinha o rosto branco como a cal, sujo de barba e terra, os olhos desfalecidos num mar de rugas. Apertava a barriga, desesperadamente.

- O que foi, ti Pisco? Tá doente?

- Foi o meu filho…aquele desgraçado espetou-me uma forquilha na barriga. Acode-me, pel'amor de Deus…'tou muito mal.

-Era verdade. Um líquido escuro e espesso, sangue, escorria-lhe por entre os dedos crispados.

- O seu filho?! Esse desgraçado? Como foi?

O ti Pisco já não respondeu. Desmaiara.

Chico Faleiro deitou-lhe as mãos e içou-o para o jumento com os cuidados possíveis num homem habituado a lidar com sacos de batatas.

Valha-me Deus. Não me bastavam já os meus problemas. O desgraçado do rapazola. Para

o que um homem tá guardado. Arre, Castanho! Vamos lá antes que o coitado me morra nas mãos.

A notícia espalhou-se como um rastilho. Nas tabernas, na igreja, no barbeiro, no café, em toda a parte onde se juntavam duas pessoas, avolumava-se, distorcia-se, em versatilidades de arregalar olho.

"O Pisco foi espetado pelo filho".

"Foi o Chico Faleiro que o encontrou ainda com a forquilha espetada nas tripas."

"Já morreu."

"O filho já foi preso pela Guarda."

"O filho fugiu, anda a monte."

Acalmada a primeire fervura, a verdade dos factos começou a vir à tona. Após os primeiros socorros no hospital de Leiria, e devido à gravidade do ferimento, o ti Pisco seguira de ambulância para Coimbra e, por lá continuava a agarrar-se à vida, com teimosia de camponês. O filho, para pasmo de todos, continuava à solta, furtando-se a todas as conversas, cosendo-se pelos becos quando via gente, os dias ocupados no amanho dos campos paternos, sem tirar nem pôr como antes dos acontecimentos.

Correram os dias, as semanas, os meses, até que um dia o Chico Faleiro, ao entrar na tasca do Américo, deu de caras com o ti Pisco. Um ti Pisco arrimado a uma bengala, magrissímo, olhos encovados cheios de horrores.

- É mesmo vocemecê? Dê cá um abraço.

- É como vês, é como vês. Obrigado pelo que fizeste por mim. Salvaste-me a vida.

- Ora, ora! Vocemecê faria o mesmo. Temos de ser uns para os outros. Dê cá um abraço e vamos molhar a goela.

-Não apertes muito que isto ainda não tá bom. Só com o tempo.

Beberam em silêncio. Mandaram vir mais uma rodada.

-Não peço o que passei nem para o meu pior inimigo. Ai de quem precisa de hospitais. Gente a morrer a toda a hora. A comida. Os tratos. Um horror.

- O que lá vai lá vai. Agora precisa é de arribar.

A roda aumentou. Olhos e bocas boquiabertas a sorver aquele pedaço de insólito.

- Olha quem é ele. Olha o ti Pisco.

Veio mais vinho.

- Estive entre a vida e a morte. Escapei por uma unha negra.

- Pode ficar bem agradecido ao Chico.

Bebeu-se mais, a conversa a transbordar. Até que a pergunta que bailava na cabeça de todos, saltou, liberta pelo álcool.

- Atão não manda prender o diabo do seu filho. Que raio de homem é vocemecê?

O ti Pisco endireitou-se, agarrado ao balcão e à bengala, os olhos cheios de vinho e restos de febre.

- Tão doidos ou quê? Ia metê-lo na cadeia e depois quem é que me tratava das terras? Vocês? Ia pô-lo à boa-vida na prisão? O castigo dele é ter de fazer o trabalho dos dois. O dele e o meu. Isso sim, é um valente castigo.