CARMEN CARVALHO

Tempo de Entrevista
com ERIKA De VASCONCELOS
Autora de: “My Darling Dead Ones” e da
nova obra “Between the Stillness and the Grove” (Entre o Silêncio e o Arvoredo)

O livro chegou às minhas mãos na terça feira, à tardinha, e eu, que o esperava há meses na deliciosa expectativa de quem espera um familiar de que sabemos da existencia mas ainda nao nos conhecemos um ao outro. Tomei-o nas mãos. O meu primeiro relance, rendido já pela beleza e sugestividade da sua capa (quem diz que a roupa não faz a pessoa... e que a primeira impressão não conta, que reconsidere essa crença!). Desfolhei com curiosidade. Sim, mesmo se não soubesse de onde veio, o estilo de Erika de Vasconcelos, está bem patente.

Antecipando uma "tarefa" agradável, não me enganei pois, fiquei, irreversivelmente absorta logo na primeira frase - There is the sea (ali está o mar). Mergulhei num mundo fluido feito assim por frases simples e suaves, encantador pelas imagens vivas que saltam das páginas a todo o momento, e tão arrebatador como a corrente em maré cheia que nos arrasta para longe., mas mesmo muito longe da costa, sem protestos, sem resistências...

É assim que ERIKA DE VASCONCELOS nos leva, pá-gina atrás de página, pelas ondas fortes de doces e amargas emoções, apoiadas pela serenidade duma paisagem ou então, pela brutalidade nua e crua de conflitos humanos.

Tinha visto e ouvido a autora no lançamento do livro "My Darling Dead Ones" ("Meus Queridos Mortos", já à venda, na versão portuguesa), há uns três anos, mas a memória ainda estava viva na minha mente, porque ver Erika a ler o seu livro é ver um reflexo da sua sensibilidade e do entendimento profundo daquilo que escreve. É ficar com a sensação de que fomos capturados para uma viagem fugaz ao fundo dum precipício do seu próprio ser...

Era sexta feira. A tarde passava como só é possível às sextas feiras. Tinha-me enganado no endereço do café onde nos fomos encontrar, e sentia-me frustrada por não ter sido tão pontual como desejava. Entrei no estabelecimento, abarrotado até à porta, de gente que terminava ainda o último turno do almoço. Procurei localizá-la. Não foi fácil. Observei mais pausadamente os rostos femininos e fui parar finalmente num que não me deixou dúvidas. Lá estavam, mesmo ao longe, os traços subtis e suaves duma personalidade tão feminina como segura.

Apresentei-me e senti-me logo àvontade. O barulho de fundo dissipou-se à medida que me foquei na tarefa que ali me trouxera - a entrevista. A princípio ainda tentei seguir a ordem das perguntas que me tinham parecido lógicas, quando as preparei, mas passaram a não fazer muito sentido à medida que a conversa se desenrolou. O que era para ficar gravado para mais tarde transcrever, por sorte ou azar, não o ficou e agora tento agarrar as pontas das ideias que se me gravaram na memória. O que era para ser entrevista, passará agora a ser a minha imagem da autora deste magnífico livro que vai ser lançado no mercado em Outubro pela editora Random House of Canada.

A história fala-nos principalmente de DZOVIG, uma jovem de origem Arménia, que, fugindo dos horrores do genocídio e agitação politica na sua terra, vai ocasionalmente parar a Lisboa. Ali permanece, trabalha e ama, mas sempre numa luta constante contra os fantasmas (vivos e mortos) do seu passado que ela quer esquecer a todo o custo - mesmo pondo em perigo a sua própria sanidade psíquica

Donde surgiu a Erika a inspiração para esta novela? Foi uma experiência pessoal - um reencontro entre duas pessoas de que ela foi testemunha - e que a marcou tanto, ao ponto de querer escrever uma novela onde o tema pudesse ser desenvolvido. Porém, as personagens, o rico conteúdo histórico e o interesse humano são elementos que fazem desta uma história universal, capaz de ser apreciada por todos.

Um dos pontos mais curiosos a que Erika me chamou a atenção é que DZOVIG é personagem introduzida no final do livro "My Darling Dead Ones". Ela e Fiona (a personagem principal da primeira novela) encontram-se numa praia e travam uma amizade imediata. Dzovig, por sua vez, menciona a Tito, nesta nova novela, o facto de elas as duas terem visitado, juntas, a "Boca do Inferno", um local de agreste e crua beleza, a norte de Cascais.

Perguntei-lhe à queima-roupa qual o seu conceito de feminismo. A gargalhada espontânea que soltou deu-me logo a ideia de que isso não é uma preocupação: ela não tem que "provar" nada. As lutas principais já foram feitas por outras mulheres, noutro tempo, perante as quais se sente grata.

E quanto às suas protagonistas de carácter forte e independente? Bom, em "My Darling Dead Ones" era imperativo que falasse da sua avó e sua tia, pessoas que ela admirou, sentindo a necessidade de tecer uma história que incluisse os seus valores. Em "Between the Stillness and the Grove" aparece o mesmo “impulso” (embora não a nível tão pessoal) embora haja também personagens femininas mais fracas.

Sem mais rodeios vou deixar aqui umas das minhas passagens favoritas, que capta muitos dos elementos que mais admiro: as descrições dos locais em que decorre a narrativa, o simbolismo das acções, a maneira como as personagens se tornam quase palpáveis.

(extracto do primeiro capítulo intitulado "Tomas"):

"She has to walk through the old quarter to get there. The Alfama, the waiter called it. The narrow streets twist and turn and rise, the houses lean against each other like a precarious stack of cards, with laundry lines strung across their facades and even from one side of the street to another. The stuccoed houses are faded and peeling but the air is cool and thin as if the country is new, or young, and she is not tired, walking up the hill, following signs that have the outline of a castle drawn on them. Turning a corner she stops, suddenly. At her feet is a woman on her knees, scrubbing the sidewalk with a brush and a pail of soapy water. Beneath the woman's body the cobblestones shine, black, wet and round, tiny rivulets of water passing between them and onto the street.
"Bom dia," says the woman.
Dzovig bends for a moment, stretches out her hand like a Christian at a font, before pulling back. Some memories are like this, sharp as new burns. She does not know what to say, except "Obrigada."
The woman looks at her, puzzled, but turns again to her washing. It is early in the day and there work to do.
Dzovig's mother, Maro, liked to pray while she washed dishes. In Yerevan, in the apartment where Dzovig lived with her parents and sister, her mother could usually be found at the kitchen sink, or the stove. In their parents; room the bed had been pushed up against the wall to make space for a small table, a makeshift altar where Dzovig's mother kept her saints..." (pag. 11-12)

Erika nasceu em Montreal, de pais portugueses, Maria Helena e Aurelio de Vasconcelos. Não tendo contacto re-gular com a comunidade portuguesa, os seus conhecimentos dos costumes, lingua e geografia de Portugal vêm-lhe do convivio com a familia de cá e de lá, no seu caso em Portugal continental. Que os seus conhecimentos são sólidos tanto como o seu amor as raizes isso está bem patente no seu primeiro livro. Quando lhe perguntei se sentia "responsabilidade" de escrever sobre os seus antepassados ou sobre Portugal, ela respondeu que não era nesse sentido que incluía elementos culturais portugueses nas suas novelas. Ela escreve aquilo que a inspiração lhe dita através do que vê, ouve, lê e presencia. O seu trabalho é feito na base de muito estudo e pesquisa. Visitou a Arménia para, evidentemente, apanhar o "pulso" ao local, à sua gente e cultura, tornan-do assim o que escreve mais credível.

Não posso também terminar esta apreciação pessoal e modesta sem me referir à forma original e interessantissima como o poeta Fernando Pessoa e as suas obras são divulgadas e entrelaçadas na narrativa de Erika de Vasconcelos.

Já nos tempos de escola, Erika demonstrou notável aptidão para escrever, mas nunca tinha publicado qualquer trabalho antes da sua primeira novela. Agora dá aulas àqueles que aspiram aperfeiçoar a arte de escrever bem e com criatividade. É uma arte dificil. É preciso muita persistência e, se é que há talento, isso só não chega. Por exemplo, o primeiro livro levou dois anos a concluir. Erika pretende continuar a escrever. Para quando o terceiro livro?
Com um sorriso e ar tranquilo responde: "no futuro".

É também mãe de Sarah e Virginia (de 7e 12 anos), a quem ela dedica esta sua recente novela. e a Nino Ricci, seu marido, que a incentiva e apoia na concretização destes trabalhos. Abaixo dos três nomes lê-se ainda, em jeito de remate: "meus amores".

Erika de Vasconcelos vai estar presente numa sessão de leitura no Harbourfront, para ler partes de Between theStillness and the Grove, esta semana. Posso confiar-lhe, em meu nome e de mais pessoas portuguesas e não só, que sei terem gostado muito do seu primeiro trabalho: estamos muito orgulhosos de si "querida".