ENTREVISTA A DEANA BARROQUEIRO



Satúrnia - Em primeiro lugar gostaria que nos falasse um pouco de si.  Quem é, o que a faz escrever?

- Talvez devesse dizer “o que sou” em vez do “quem sou”, porque, mais do que a herança genética ou a educação que recebi da família e na escola, contribuíram para a minha formação os grandes mestres da literatura mundial, dos clássicos aos modernos que conheci através das suas obras. Sendo uma leitora compulsiva, desde muito cedo esses mestres me rasgaram janelas na alma para mundos e experiências de vida, que de outro modo eu nunca conheceria, contribuindo desde logo para uma maior consciência de mim mesma e aguçando-me o engenho e a imaginação. Creio que deles me vem ainda esta necessidade que sinto de escrever, de contar as histórias que me habitam, como fontes subterrâneas que murmuram em surdina, ansiosas por jorrarem palavras, imagens e sensações. Sem a escrita, secaria como uma terra sem água.
Quem sou? Apenas uma professora de Línguas e Literaturas, aposentada, que aproveitou esta nova fase da vida para viver a tempo inteiro a sua paixão maior que é a escrita.

Satúrnia - Sabemos que nasceu nos Estados Unidos. De que forma isso a marcou e quais são os laços que a prendem ainda ao Novo Mundo?

- Vim com dois anos de idade para Portugal, com a minha mãe e dois irmãos mais velhos. A ausência do pai, que continuou a viver nos E.U. até à sua reforma, marcou-me muito, dando-me a conhecer, desde a infância, o sabor amargo da saudade. Actualmente tenho laços familiares que me ligam ao outro lado do Atlântico: o meu irmão, a minha cunhada e duas sobrinhas – cada uma com o seu marido e um casal de filhos.

Satúrnia - Nos seus romances predomina uma temática histórica ligada aos Descobrimentos e às viagens. Como foi que nasceu essa paixão?

- Julgo que essa experiência da travessia do Oceano Atlântico num grande navio, durante meses, ainda que na primeira infância, me gravou o apelo do mar nos ossos, no sangue e na alma. Depois, há uma imagem que guardo vivíssima das minhas recordações de infância: a da chegada dos enormes baús ou malas de porão que o meu pai mandava da América, de tempos a tempos, carregados de presentes. Abrir aqueles baús era como descobrir a arca do tesouro dos Corsários do Malabar ou do Mar da China. Um deslumbramento! As minhas leituras de menina nunca foram “Os Cinco” ou outros do mesmo género que achava muito infantis, eu devorava os livros do Emílio Salgari ou de Jules Verne.

Do mesmo modo, quando dei aulas, comecei a fazer escrita criativa com os meus alunos, pondo-os a escrever contos de viagens com as personagens dos Lusíadas e de outras obras do programa de Português. E apaixonei-me por essas figuras extraordinárias, de um período riquíssimo da nossa História, que eram quase desconhecidas dos portugueses ou injustamente esquecidas. Acabei por criar uma colecção juvenil, ao modo da de Emílio Salgari, com os grandes navegadores e exploradores dos Descobrimentos Portugueses, a Colecção Cruzeiro do Sul, mas em Portugal poucos se aperceberam do valor daquelas obras, por isso a abandonei. A escrita do romance histórico para adultos foi naturalmente o passo seguinte.

Satúrnia - O seu último romance roda em torno dessa personagem fabulosa que foi Fernão Mendes Pinto. Fale-nos um pouco da obra.

- Levei três anos a escrevê-lo e foi o mais trabalhoso de todos os meus livros. Primeiramente, pela personagem complexa que é Fernão, cuja vida só se conhece pelo que ele próprio escreveu na sua espantosa Peregrinação, a primeira grande obra narrativa mundial do encontro entre o Ocidente e o Oriente, escrita no Séc. XVI, publicada em 1614, após a sua morte. Embora Fernão Mendes Pinto se apresentasse como o melhor suporte para a narração da gesta dos Portugueses no Oriente longínquo, parecia-me uma tarefa impossível romancear-lhe a vida sem correr o risco de me colar à sua obra, fazendo uma paráfrase ou uma glosa.
Outra dificuldade consistia em conciliar – não só entre si, mas também com a saga dos Descobrimentos dos Portugueses no Oriente – as viagens de Pinto por inúmeros mares e lugares, sem me enredar nos erros de datas, terras e acontecimentos (compreensíveis, por ele estar a contar tais sucessos quase trinta anos depois de os ter vivido).
Para ultrapassar estes obstáculos, dividi o romance em sete partes ou mares, de acordo com as áreas geográficas por onde Fernão navegou, criando estrutura demasiado complexa de concretizar, mas que, ao fazê-lo, me permitia alargar o conhecimento dos meus leitores, espicaçar-lhes a curiosidade e diverti-los, levando-os, numa viagem no Tempo e na pele das personagens, ao encontro de mundos antigos e de outros povos, tão diferentes e ao mesmo tempo tão semelhantes na sua humanidade. Daí a razão para cada capítulo começar por um provérbio e um texto da época retratada, português ou dos muitos países visitados e até imaginados, desde o Mar Roxo à Terra Australis, na busca incessante da mítica Ilha do Ouro.
Deste modo, permiti-me guiar o leitor – através das minhas personagens e, por vezes, com a minha própria voz – pelos sucessos do Reino do Preste João ou do primeiro Cerco de Diu; ver os mercados de escravos onde Fernão é vendido e, na fortaleza de Cochim, encontrar Iria Pereira, a primeira portuguesa na Índia; ouvir a história dos “casados” de Goa ou assistir à morte heróica de D. Lourenço de Almeida; participar na busca da Ilha do Ouro, a partir de Malaca, conhecer o destino da embaixada de Tomé Pires ao imperador chinês, presenciar os primeiros contactos com a China ou o Japão e tantas outras aventuras destes pioneiros da globalização que foram os Portugueses, no Século XVI.

Satúrnia - Pelo que a conhecemos, não é mulher para ficar parada. Qual é a próxima fornada ou ainda está no segredo dos deuses?

- Vou retomar a nossa História no ponto em que a deixei com o meu romance D. Sebastião e o Vidente, dando vida a um grande aventureiro e poeta do Século XVII também injustamente esquecido. Será outra missão quase impossível, mas eu gosto dos grandes desafios…

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