Entrevista a Eduardo BETTENCOURT PINTO

           







Satúrnia
 
– Em primeiro lugar gostaria que nos falasse um pouco de si. Quem é, como veio parar ao Canadá, o que o faz escrever?
EBP
– Sou angolano de nascimento. O meu pai era de Verride; a minha mãe é açoriana, da ilha de S. Miguel. Saí do país em 1975, 2 meses antes da Independência. Estive noutros países africanos até me radicar em Portugal em 1976. Vivi desde esse ano nos Açores, tendo vindo para o Canadá em 1983.
A minha mulher (açoriana) manifestou interesse, por motivos familiares, em radicar-se no Canadá. Acordámos que viríamos por uns tempos, a experimentar. Acabamos por ficar.
Às vezes não me parece clara a razão por que escrevo. Intuição, necessidade de construir uma ponte entre mim e o universo. As razões são várias. Mas é, sobretudo, uma catarse, monólogo comigo mesmo. Isso, claro, sob o ponto de vista emocional. No que diz respeito ao aspecto criativo, há o gosto intrínseco de quem aprecia Literatura e Artes, como meio de expressão da alma.
Na poesia, por exemplo, extravaso a música, o encantamento perante as coisas que me deslumbram, porque acredito sobretudo que há uma divindade no ar, um princípio, uma esperança, mesmo na mais profunda tristeza. Gosto de me deslumbrar com as palavras, por aquilo que podem transmitir de filantropia, aconchego, abraço, arte suprema.
Na ficção, aprecio a liberdade criativa, a surpresa ante vidas ficcionadas, mundos interiores, lugares, memórias.

Satúrnia
 
– Já afirmou que a história da sua vida é inseparável da sua língua. Mas nunca pensou em escrever em inglês? Ou em ver a sua obra traduzida para inglês?
EBP – Tenho algumas coisas escritas em inglês, mas não publico. Penso escrever poesia, organizar um livro. Tem-me faltado tempo e alguma motivação. Talvez porque não veja a Literatura como a parte mais fundamental na minha vida. Gosto, por exemplo, de Fotografia. Tenho dedicado muito tempo a esta nova (para mim, claro) expressão de arte, a par da digital, que me empolga. Não tem a barreira da língua, é universal, pode ser apreciada por qualquer olhar estrangeiro. Por outro lado, talvez funcione psicologicamente como uma forma mais subtil de colmatar insuficiências. Admiro muito a Pintura, mas não tenho absolutamente talento nenhum nessa área.
Parece-me cada vez mais difícil publicar, escrevendo em português. Quem vive fora de Portugal, como eu, tem imensas dificuldades em acompanhar a promoção dos seus livros. Há autores que têm gosto e paciência para isso. Eu não. Faço-o por mera responsabilidade para com o editor, que investe, e pelo risco económico que isso sempre acarreta. Independentemente disso, aprecio o contacto com os leitores. No entanto, se pudesse prosseguir sem publicar mais nenhum livro, acredito que o faria. Mas já investi muitos anos na literatura e seria ilógico fechar a porta. Acredito também que Portugal (e Angola, no meu caso) não está muito interessado nos autores que vivem fora das suas fronteiras (com excepção dos Açores, gostaria de frisar. A Região tem sido exemplar nesse sentido através da Direcção Regional das Comunidades). Jorge de Sena e José Rodrigues Miguéis queixavam-se disso. Pelos vistos a situação não mudou. Contudo, não me deixo tocar pela indiferença; sou demasiado desprendido: "O meu mundo não é deste reino".

Satúrnia  – O facto de escrever em português e de viver, pelo menos uma parte da sua vida, em inglês não é para si doloroso? Não causa um certo desdobramento de personalidade, um certo desenraizamento? Ou será, pelo contrário, esta pertença a vários mundos, um enriquecimento da sua vida?
EBP – Doloroso não é. Acho, sim, que obriga a um desdobramento de carácter. Uma língua acarreta também diversidade no sentir, afinidades e perspectivas dessemelhantes das nossas. Ao longo da minha vida tenho sido exposto a muitas vivências, assimilando culturas, enfim ummodus vivendimúltiplo que tenho absorvido como toalha de festa na imensa mesa das experiências. Desenraizamento há sempre, sobretudo quando não se está com a nossa gente. Ora, eu sou um africano branco com (gostosa) costela açoriana. Toda a minha vida tem sido, em certa medida, um exercício de busca e de encontro, de afinidades e empatias com gentes de outros lugares.

Satúrnia  – Ainda sente Angola como a sua pátria? Ou será um laço que se vai quebrando com o correr dos anos?
EBP – Nunca tive com Angola, vamos lá, uma relação de cidadão-pátria porque nunca lá vivi depois de se tornar independente. Quando saí de lá, Angola era ainda uma província de Portugal. Talvez por isso é que me refira a Angola como minha terra e não como meu país. No fundo, tudo vai dar ao mesmo. Cada um vê o seu país como pode. Mas pertenço àquela terra, pelo menos parte de mim. Saí de lá com vinte anos, amando os seus contornos e as suas feridas, e jamais me separarei do seu charme e das suas cinzas. Ela vive (e sobrevive) para além do deserto do Tempo e da distância. Amo Angola incondicionalmente.
Ggostaria muito de saber o país organizado, democrático, honesto, com políticos a viver do seu salário, com contas prestadas, sem a cancerosa e vergonhosa corrupção que o mina por dentro. No entanto, o fim da guerra é já uma vitória.
O colonialismo, penso, nunca acabou em relação a África. Os processos é que são diferentes. O Mundo é muito hipócrita: negocia com regimes corruptos, sabendo de antemão que os povos estão sempre na cauda dos seus interesses, sendo, nesse processo, as primeiras vítimas a cair. Angola tem todas as condições para ser um dos melhores países africanos.

Satúrnia
  – Após alguns anos de distanciamento, a sua recente aproximação à comunidade portuguesa do Canadá que frutos lhe trouxe? Como vê a comunidade em termos literários e culturais?
EBP – Tive oportunidade de conhecer pessoas extraordinárias com provas inúmeras de liderança, critério e elevado espírito de sacrifício pela sua cultura. Por outro lado, deu-me oportunidade de colaborar em várias iniciativas que me enriqueceram muito, a vários níveis. Há pessoas muito empenhadas nas Universidades, que muito prezo e admiro, e que têm feito um trabalho exemplar no meio académico. Mereciam maior reconhecimento público e oficial, quer tanto da parte portuguesa como canadiana. Não posso também olvidar aqueles que, laboriosos, fazem jornais, programas de rádio e televisão, e agora na Internet, em que a Satúrnia, por exemplo, constitui um marco de altruísmo cultural, abnegação e persistência heróica.
Há escritores e poetas a escrever e a publicar, alguns com elevada qualidade. Conhecê-los e conviver com eles (as) tem sido muito enriquecedor para mim. Um privilégio.
Gostaria que a comunidade portuguesa começasse a pensar muito seriamente em edificar Centros Culturais. Precisa de bibliotecas, salas de conferências, investigação, etc. Precisa, enfim, que as novas gerações (sobretudo as cultas) tenham nesses centros um lugar de convívio digno e de resposta às suas questões culturais e de grupo. É também altura de a comunidade portuguesa se abrir aos outros povos lusófonos, com espírito de partilha e intercâmbio. Sobretudo cultural.