ENTRE CAMPOS


A Vida e Obra de Alberto de Castro

Por Hélder Ramos

A vida e a obra de um artista são inseparáveis; a vida privada e pública do artista alimenta a criação de arte, e a arte dá rumo à vida. O artista é artista 24 horas por dia, 7 dias por semana, 52 semanas por ano; não tira feriados, nem é pago "over-time". Nem sempre é fácil criar arte, porque nem sempre é fácil viver.

A semana passada foi AIDS Awareness Week, uma semana de sensibilização sobre a SIDA; Alberto de Castro, aos 42 anos, foi também vítima deste flagelo. É, portanto, bastante apropriado que amanhã — 7 de Dezembro — a Casa do Alentejo de Toronto abra as portas da nova Galeria Alberto de Castro, às 19h00, com uma exposição de exemplares da obra do pintor português.

A ideia desta exposição já vem de há muito, segundo nos contou Lurdes Marchão, coordenadora e porta-voz desta iniciativa. Diversas direcções da Casa do Alentejo de Toronto já tinham planeado uma exposição semelhante, mas desta vez reuniram-se as qualidades e talentos necessários para levar a iniciativa ao fim. Entre outros projectos, a actual direcção tenciona instalar um elevador na sede para que as pessoas com deficiências físicas possam também visitar a galeria.

A exposição a inaugurar amanhã consistirá de pinturas em tela e em tijolo, pertencentes à colecção da casa, e até uma bata utilizada pelo parceiro de Alberto de Castro, Cecil Young Fox. Estará também em exposição uma peça de teatro escrita por José Perreira, sobre a vida do artista, e outros documentos, folhetos e anúncios para diversas exposições em que Alberto de Castro participou. Eis uma descrição da obra deste artista luso-canadiano publicada no portal educativo Canada's Digital Collections, mantido pelo governo federal do Canadá:

"Alberto de Castro is one of Canada's most accomplished and respected naive artists. He is a warm, dedicated artist whose entire life revolves around his work. His heart-felt sincerity and love of Canada, intertwined with his technical mastery and expertise, are evident in his visual use of vibrant acrylic colours and designs. Alberto has had numerous successful solo exhibitions, and his works are sought after by illustrious corporate and private collectors across Canada and throughout the world."

Foi uma pintura — de uma nazarena — que lançou a carreira de Alberto de Castro. O quadro foi visto por Cecil Young Fox, que tentou logo iniciar contacto com o pintor desconhecido. "A partir daí, o Sr. Fox apresentou o Alberto a galerias e ajudou a divulgar o trabalho naïf do Alberto entre apreciadores de arte no Canadá", de acordo com José Perreira, amigo de Alberto de Castro, com quem também falámos esta semana.

Entre a comunidade Portuguesa, no entanto, demorou algum tempo até este filho da pátria ser aceite pelos seus compatriotas. "O maior desgosto do Alberto foi de nunca ter visto portugueses nas exposições dele em Toronto e Montreal", disse-nos o Sr. Perreira.

"O Alberto era um homem muito sensível, completamente autodidacta, que adorava falar sobre tradições, ver procissões. Fascinavam-lhe os rostos e os ditados Portugueses e nunca se cansou da música de Amália Rodrigues, e da fadista local Luciana Machado. Quando ele esteve em Espanha, onde passou muita fome, conheceu a Amália, a quem pediu algo para comer. Ela ofereceu-lhe uma refeição. Anos mais tarde, o Alberto ofereceu-lhe um quadro pintado por ele", recordou José Perreira.

"O que eu gosto mais do trabalho de Alberto de Castro", contou-nos Lurdes Marchão, "é a alegria contida no estilo naïf que utilizou. A alegria é contagiante, especialmente quando se tem em conta o sofrimento que pintar lhe causava. A mãe dele morreu quando ele nasceu, e a relação que teve com o seu pai não foi das melhores. O pai não queria que ele fosse pintor. Ele fugiu de casa e passou muitos anos sozinho, sem reconhecimento. E morreu cedo, pouco depois do seu talento ser reconhecido."

A importância desta obra é o exemplo que dá de um estilo de arte e cultura que está agora a ser criado; não é cultura portuguesa, nem canadiana. É um expoente da cultura luso-canadiana, que estamos todos os dias a criar. Só por esta razão, merece reconhecimento.

Quando a peça de José Perreira foi apresentada durante a Semana de Portugal em 1985, houve quem achasse mal homenagear um pintor daquela maneira, sem que este estivesse morto. Alberto de Castro já morreu. Esperamos, portanto, que a comunidade apareça em peso amanhã, na Casa do Alentejo.