ENTRE CAMPOS


Mark Gomes:
Consumismo e a cultura do quotidiano


Por Hélder Ramos

O escultor canadiano de descendência lusa, Mark Gomes, lançou recentemente uma colaboração com a escultora local Ginette Legaré de que resultou a exposição Slip, actualmente patente ao público na galeria Koffler, em Toronto.

O conceito principal de Slip pode-se reduzir à mutabilidade inerente de cada objecto do nosso quotidiano. Por outras palavras, nem tudo é o que parece ser; ao inverter a função da arte e do design industrial, Mark Gomes — em sintonia perfeita com a sua colaboradora, Ginette Legaré — tenta mostrar a versatilidade de interpretação e utilização que a sociedade de consumo actual proporciona a cada `produto'.

A escultura Float, por exemplo, inclui secções de escadas de alumínio enquadradas por `plexiglass' e cartão canelado. Noutra sala, uma mesa de ping-pong serve de base para uma paisagem de papelão (que nos faz lembrar os modelos arquitectónicos de Álvaro Siza), enquanto que baldes de plástico servem para esconder outros objectos mais pequenos e de utilidade indefinida. Estes baldes foram anteriormente utilizados noutras exposições do escultor, comprovando a tese da mutabilidade exposta em Slip _ um outro exemplo é a escultura de Legaré, que contém 365 colheres intercaladas numa parede e que criam imagens diferentes, consoante o ângulo de visão do espectador.

Foto: Cheryl O'Brien

"Float", 1993 de Mark Gomes

Gomes e Legaré estão em sintonia perfeita nesta exposição, já descrita por um crítico local como uma `sinfonia curatorial'. A linguagem visual de ambos os escultores é semelhante, mas não idêntica. Por exemplo; ambos utilizam o humor, mas enquanto Legaré tenta "conduzir" o olho de objecto para objecto, facilitando uma narrativa `interior' e pessoal para cada espectador, Mark Gomes prefere atirar tudo para dentro do `caldeirão' e deixar a conjunção total dos objectos sugerir um ponto de partida para a meditação.

O texto que acompanha a exposição, composto pela conservadora da galeria, Carolyn Bell Farrell, sugere diversos temas para reflexão: a relação entre o imaginário e o real; o irracional e o racional; o útil e o inútil. Ao oferecer estes opostos, o objectivo é neutralizar a tendência do espectador de procurar tentar "fazer sentido" do que está a ver. Os elementos que integram a exposição Slip são expoentes concretos de um vocabulário visual que visa neutralizar o acto de "ver".

Esta "linguagem" não é nova e Slip apresenta pouco que se pode considerar arrojado ou de vanguarda. Apresenta, sim, um culminação e ponto de referência — pelo menos no caso de Mark Gomes (desconhecíamos o trabalho de Legaré até vermos esta exposição); há anos que o escultor de origem portuguesa tem vindo a explorar a relação da arte com o quotidiano e a influência da sociedade de consumo sobre a percepção do indivíduo com respeito a essa mesma sociedade.

Foto: Isaac Applebaum

Uma das peças de Mark Gomes

É possível que Slip seja o produto final de uma fase de ruminação e produção cultural do artista. É também possível que as esculturas de Mark Gomes venham a deixar de ter sentido à medida que novas gerações de artistas, criados num mundo altamente dependente da tecnologia, deixarem de explorar as diferenças entre a nossa sociedade actual e a sociedade pré-Internet.

Os conceitos de espaço e tempo são atirados ao rol do inútil — no caso do `cíber-mundo', como exemplo concreto — e ficamos com uma existência definida pelas escolhas que fazemos e pelo que compramos. Isto é, pelo nosso consumo, uma existência pré-definida pelas imagens e ideias simplisticas fornecidas pelos órgãos de comunicação social, que se tornam cada vez mais intrusos (e indispensáveis?).

Se a arte, e neste caso a escultura, vai conseguir sobreviver neste novo mundo pós-tecnológico, ainda não sabemos. O que é mais uma razão para o leitor não perder esta oportunidade de ver o trabalho de um conterrâneo já considerado um dos `grandes' da arte contemporânea do Canadá.

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Slip estará em exposição até 9 de Março na galeria do Koffler Centre of the Arts, um centro integrado no Bathurst Jewish Community Centre, sito ao 4588 Bathurst Street. Para mais informações, o público pode contactar o telefone 416 636-1880, ext. 268, e-mail: koffler@bjcc.ca ou online no www.bjcc.ca