ENTRE CAMPOS


Danny Custódio:
Retratos e Realidades


Por Hélder Ramos

A imagem fotográfica é uma representação directa do que o olho vê, um documento que comprova a percepção. Mas é também uma forma de recordar e celebrar marcos, conquistas ou etapas da vida. Cada comunidade, cada cultura, cada indivíduo oferece valores, costumes, perspectivas, experiência, e uma história única e merecedora de atenção.

Afirmação Cultural, a primeira exposição do artista Danny Custódio e um conjunto de 18 fotografias a cor do jovem luso-canadiano de 22 anos, patente ao público até 25 de Abril deste ano na galeria Almada Negreiros.

Algumas das fotografias são retratos simples de objectos; flores, utensílios de sala de jantar, o galo de Barcelos, pequenos cabazes (um em forma de caravela) que transportam licores e sabores exóticos, talvez recordações de anos passados em África antes da viagem rumo a América do Norte.

Aparecem mãos que nos mostram relíquias; brincos e fios e golfinhos de cerâmica comprados durante o Verão passado no Algarve. Outras retratam indivíduos, por vezes acompanhados de outros objectos de apego emocional: casacos de marca Puma, uma caixa de cerveja Coors, uma mão que todavia guarda uma outra foto, a do fotógrafo em si, mas com menos anos de idade. A personagem do `fotógrafo' aparece diversas vezes, e sempre em pose: no jardim com o seu pai, ambos de braços cruzados; o fotógrafo a olhar para a câmara, com um retrato de Jesus Cristo também a olhar-nos, por cima do seu ombro direito...

O terceiro tipo de fotografias do conjunto retrata indivíduos supostamente a viverem momentos do dia-a-dia, por vezes, sem terem em consideração a presença de uma máquina fotográfica ou de um fotógrafo, ao natural, ou distraídos: irmãos, primos, primas, tios, tias e pais, todos juntos durante uma refeição; irmãs a `chatear' na internet ou a procurar no jornal um bom preço para viagens a Cuba, completamente absorvidas; homens perdidos com o hóquei na televisão, e as mulheres, perdidas em conversa de lava-loiça.

O jovem artista Danny Custódio

Uma imagem, em particular, obedece a todos estes parâmetros (como a exposição não inclui legendas a acompanhar cada fotografia, não e possível mencionar-lhe o nome).

Vê-se a personagem do fotógrafo, de lado para o observador, descalço e com braços apoiados nas

costas de uma cadeira de cozinha. Ele pode (ou não) estar a olhar para sua mãe, pode (ou não) estar a ter um momento de dúvida, ou de reflexão, ou está prestes a fazer-lhe uma pergunta.

A mãe está de costas para o observador, a olhar lá para fora para o quintal onde está o seu esposo, o pai. Ela pode estar a dizer-lhe para acender o barbeque, ou a pensar nele, distraída, a ver na sua figura o homem com quem ela se casou e acompanhou até ao estrangeiro.

E o esposo olha para o céu, talvez a ver um avião a passar a caminho de Portugal, ou talvez a tentar averiguar a possibilidade de chuva para regar o seu pequeno pedaço de chão neste país, enorme e frio de Verão curto.

No canto, uma imagem de Danton numa banheira de Charenton!

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"Tirar fotografias" tornou-se ritual de família na mesma altura em que nas sociedades industrializadas da Europa o conceito da família tradicional, nuclear, começou a modificar.

Ao tirar fotografias, o fotógrafo tenta preservar imagens, ideias, relações, muitas dos quais, anos depois, existem somente na folha de papel que contém a imagem.

Tirar fotografias é também uma arte, capaz de despertar e desafiar o coração e estimular a associação de ideias. Man Ray confessou que pintava o que não podia fotografar e `tirava' fotografias em momentos impossíveis de depois pintar.

Com esta colecção, Danny Custódio aborda diversos temas: as expectativas de familiares, a solidão em sociedade, e a forma como símbolos da nossa sociedade de consumo estabelecem-se na nossa vida e definem quem somos.

Uma abordagem perfeitamente adequada ao tema de identidade.

Afirmação Cultural está patente ao público das 9h00 às 13h00, até 25 de Abril, no 14º andar do 438 University Ave. em Toronto (metro: St. Patrick).