ENTRE CAMPOS


A Assunção de Mónica

Por Hélder Ramos

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"Saint Monica, a North African woman, was the mother of Saint Augustine. She is generally regarded to be the patron saint of "children who disappoint their parents, people with addictions and women in abusive marriages." As Odette points out, "this is our family of Monica, Albert and Icelia".

- Excerto da informação sobre o filme Saint Monica, proporcionada pela produtora

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Saint Monica é um filme sobre a nobreza de espírito, a amizade entre gerações, o valor da persistência, a luta pela justiça social e o amor pelo próximo. É também uma tentativa de encontrar um meio termo entre o apego ao familiar e a familiarização com o desconhecido. É um filme religioso para o espectador religioso, mas não é necessário ter fé para tirar proveito de o ver.

A acção em Saint Monica decorre durante um Verão em Toronto e tem como protagonista principal a Mónica (Genevieve Buechner), uma menina luso-canadiana de 10 anos cujo único sonho é ser anjo numa procissão anual, organizada por uma paróquia portuguesa. Ela faz tudo para participar na procissão, mas a oportunidade é-lhe negada por diversos motivos, os quais ela se recusa a aceitar. Decide então fazer a única coisa que pode: rouba as asas do fato de um anjo e foge, mas perde-as quase imediatamente. Mónica põe-se à procura das asas pelas ruas de Toronto e vai encontrá-las na posse da Mary (num excelente desempenho de Clare Coulter), uma mulher sem-abrigo. A Mónica e a Mary fazem um pacto: as asas ser-lhe-ão devolvidas, mas só depois da Mary concluir uma série de acções para as quais ela necessita das asas.

Entretanto, decorre uma outra história interligada à de Mónica e Mary, que é a de Icélia (Brigitte Bako), a mãe da Mónica, e Alberto (Maurizio Terrazzano), irmão da Icélia e tio da Monica. A Mónica, a Icélia e o Alberto alugam o apartamento de uma senhora que lhes faz a vida negra porque a Mónica está sempre a romper uma pequena janela de rede, e porque o Alberto promete que a vai arranjar mas nunca o faz. Para não estragar a surpresa ao leitor que tenciona ver este filme, basta apenas dizer que esta janela, e as tentativas de a arranjar, proporcionam material suficiente para dar a entender a realidade que estes jovens enfrentam.

Saint Monica oferece uma oportunidade rara para ver "os nossos" no ecrã gigante, talvez seja até um dos primeiros de um número crescente de filmes que têm como protagonistas os portugueses da diáspora. É, portanto, uma curiosidade, e um marco. É também uma oportunidade para ter uma noção do que os "outros" pensam de nós.

É necessário, porém, ter o cuidado de não nos deixarmos cair na ratoeira de achar que este filme é "sobre" a comunidade portuguesa, ou que Saint Monica tenta retractar a nossa comunidade e, por consequência, julgá-la. Vai concerteza haver quem fique ofendido com este esboço do realizador Terrance Odette. Outros vão achar que o retrato dos portugueses em Toronto não é muito exacto. Em ambos estes casos, cairíamos no erro de julgar que todos os portugueses têm o mesmo tipo de vida, pensam o mesmo, fazem o mesmo, vivem da mesma maneira, etc. As ambições de Terrance Odette são mais simples: o realizador viveu durante muitos anos na zona da Ossington e Dundas. Durante esse tempo, observou os portugueses na sua rua, tomou nota de algumas particularidades e tentou transformar estas impressões num filme que, porém, não deixa de ser sobre as aventuras de uma menina, e não sobre uma comunidade inteira. Por exemplo: a Mónica, a Icélia e o Alberto mudam de casa, saem da zona de "Little Portugal" e vão viver para o outro lado do Don Valley. No entanto, a Mónica continua a frequentar a zona dos portugueses (porque quer ser anjo na procissão), e o Alberto também volta sempre para a Ossington e Dundas, talvez por hábito. Quando ele falha novamente no arranjo da tal janela de rede, a Icélia diz-lhe: "With 40,000 hardware stores between here and there, you had to go back to the same one! "Este "one" é a loja da qual o ex-marido de Icélia (e pai de Mónica), Vicente, é dono, e é onde o Alberto se sente mais à vontade. Este apego ao "bairro" não é uma característica somente portuguesa, mas é um sentimento que leva a algumas situações menos saudáveis neste filme.

Talvez por não ser português, Terrance Odette escolhe imagens "de marca" que nem nos passariam pela cabeça retratar, tais como a cena de um senhor reformado a regar o cimento com uma mangueira — um hábito não só de portugueses, considerado inútil e um grande desperdício de água por muitos "canadianos". Depois há aquelas imagens que são de grande significado para nós, mas que não foram propositadamente construídas, tais como a de dois miúdos a jogar à espada com paus de bandeira — uma dos Açores, a outra do continente.

Saint Monica sofre de algumas incongruências e lapsos de continuidade, e algumas ideias necessitam de clarificação. O filme começa, procurando apresentar um retrato "realista" sobre a vida de uma menina e das pessoas que a rodeiam, mas para o final parece já uma tentativa de "Magic Realism", em que o possível e o impossível são definições fluídas. Este tipo de transformação é possível, mas são necessários pontos de referências e de transições, que estão ausentes neste caso.

A banda sonora inclui uma boa selecção de música portuguesa tradicional, contemporânea, assim como de países de expressão Portuguesa,, incluindo "Rap" angolano, e temas de cançonetistas locais, tais como Fátima Ferreira e Nelly Furtado. Mas talvez por isso mesmo, e com algumas excepções, sofre de demasiados protagonistas; a música de fundo deve ser isso mesmo: música que nem sequer notamos que está a passar, mas que ajuda a `tocar' nas nossas emoções. Neste caso, a música serve por vezes para nos distanciar da acção.

Do ponto de vista cinematográfico, o filme está muito bem realizado, as imagens estão bem fotografadas e o realizador consegue dizer muito através das imagens e com poucas palavras — a frase mais comum de Mónica é "I didn't say anything!", ou seja, "eu não disse nada".

Como se diz em Inglês, isto são "quibbles", pequenas notas de roda-pé de alguém que está acostumado a ver cinema com o chapéu de crítico. A realidade é que vale a pena ver Saint Monica — mas ao contrário do que fez este escriba, deixe o chapéu em casa.

Saint Monica estreia hoje no Carlton Cinemas (Carlton e Yonge, junto ao Maple Leaf Gardens) onde estará em exibição até 20 do corrente. Para mais informações, é favor consultar os roteiros de cinema nos jornais diários canadianos.