A Nossa Comunidade
Desde 1953...



Por:José Vieira Arruda

A "La Nouvelle France", como se chamava a província do Quebeque nos tempos coloniais, sempre contou com a presença portuguesa. É verdade, a História do Quebeque jamais poderá ser escrita sem incluir nomes portugueses como Sylva (Silva), DaSylva (da Silva), Rogrigue (Rodrigues), Desmourache (de Morais?) e muitos outros. No entanto, foi só a partir de meados do século XX que os portugueses chegaram ao Quebeque "em massa". Quando vieram, de onde vieram e onde se estabeleceram?

Sabemos que, em 1952, vinte imigrantes portugueses desembarcaram na cidade de Halifax, Nova Escócia. Eram açorianos e provenientes da Terceira. No ano seguinte, no dia 13 de Maio de 1953 chegava à mesma cidade de Halifax outro grupo de imigrantes portugueses, vindo para o Canadá por intermédio de um contrato de trabalho. Eram 85 homens, 67 de Portugal Continental e 18 da ilha de São Miguel, Açores. Viajaram a bordo do transatlântico Satúrnia, tendo este deixado o Porto de Lisboa no dia 8 de Maio. Os micaelenses eram originalmente um grupo de 21 homens. Partiram de Ponta Delgada a bordo do Lima, com rumo a Lisboa, no dia 21 de Abril. Já tinham sido inspeccionados, por médicos portugueses, em Ponta Delgada. Porém, o governo canadiano exigia uma outra inspecção e por médicos canadianos. Dois deles foram reprovados. Não querendo regressar a São Miguel, por vergonha, foram expedidos gratuitamente para o Brasil. No mesmo ano, mas agora no dia 1 de Junho, também chegava à cidade de Halifax outro grupo de portugueses, a bordo do S.S. Hellas. Eram 102 homens madeirenses.

A mesma equipa de médicos canadianos, antes de chegar a Lisboa, já tinha passado pela Madeira. Na cidade do Funchal, inspeccionaram 125 homens. Destes, 23 foram reprovados e, consequentemente, não puderam seguir viagem. Seguiram, portanto, os 102 homens aprovados, partindo do Funchal no dia 26 de Maio.

No ano de 1954 chegaram outros dois grupos de homens portugueses. Chegaram a bordo do navio Homeland. O primeiro grupo, composto de 400 homens, chegou no dia 23 de Março e o segundo, composto de 600 homens, no dia 23 de Abril. Segundo escreve Duarte Nuno Lopes, no seu livro PEREGRINAÇÃO: UMA HISTÓRIA DAS COMUNIDADES PORTUGUESAS DO QUEBEQUE, "ao todo, entre 1952 e 1957, apenas 8.115 portugueses, vindo maioritariamente dos Açores e da Madeira, estabeleceram-se no Canadá." Na sua maioria eram homens casados, pais de filhos, que decidiram emigrar por razões económicas. Esperavam ganhar o suficiente para pagar a "dívida da passagem" e, logo depois, mandar chamar a mulher e os filhos "de carta de chamada". Podemos dizer que estes homens e, depois, suas mulheres, a que foram os pioneiros da imigração portuguesa no Canadá. Chegaram sozinhos e sozinhos se lançaram à vida, trabalhando nas linhas de ferro, na agricultura, sem uma palavra de francês ou inglês, muitos completamente isolados de outros portugueses. Muitos eram despedidos no Inverno, por falta de trabalho. Mas tinham que pagar a tal dívida da passagem, tinham que mandar o sustento para a mulher e os filhos, tinham que pagar a renda do quarto que habitavam e tinham que comer... quando sobrava algum dinheiro. Por isso, partiam à procura de outros trabalhos. Alguns conseguiam trabalhos temporários até voltarem aos campos. Outros mudavam de trabalho, começando agora a trabalhar na construção que, por acaso, pagava melhor do que a agricultura.

Segundo as estatísticas do "Ministère des Affaires Internationales, de l'Immigartion et des Communautés Culturelles", sabemos que, entre 1953 e 1970 se estabeleceram no Quebeque 9.930 imigrantes portugueses. O número é mais ou menos o mesmo entre os anos 1971 e 1980, 9.625. Entre 1981 e 1991 o número desce para pouco mais da metade, 5.485.

É na cidade de Montreal que a maioria dos imigrantes portugueses decide fixar a sua residência. Sendo a cidade maior e mais industrializada da província, é lá que os imigrantes vão ficar porque é lá que vão encontrar os seus empregos e outros portugueses também. Fixam-se, pois, no chamado "corredor dos imigrantes", isto é, no Bairro Saint Louis, delimitado pelas rues Sherbrooke/St.-Joseph e St.-Denis/ave. du Parc. É chamado o "corredor dos imigrantes" porque foi neste bairro, situado ao longo da St-Laurent e da St-Denis (um corredor!), que quase todas as comunidades imigrantes se fixaram logo nos primeiros anos da sua chegada. A primeira comunidade de imigrantes que se instalou no Bairro de Saint-Louis foi a comunidade judaica ashkenazim, da Europa Central e do Leste, nos fins do século IXX. Depois, passaram por lá também alemães, polacos, italianos, gregos, russos, escandinavos, belgas, e muitos outros grupos.

Também os portugueses e, agora, os latino-americanos e os asiáticos. Seguindo também o movimento de todos os outros grupos de imigrantes que se fixaram no Bairro de Saint-Louis, quando a vida melhorava, vendiam a casa e mudavam-se para um bairro melhor como, por exemplo, Laval, Anjou, LaSalle, Pierrefonds, Saint-Léonard, Montreal Nord, etc. Mas não todos. Muitos ainda lá estão e, ainda hoje, podemos passear pelo Bairro Saint-Louis e notar, nitidamente, a presença portuguesa.

É lá que se encontram os maiores comércios portugueses, alguns restaurantes, cafés e clubes, a Missão Católica de Santa Cruz e a Caixa Económica dos Portugueses.

Onde se encontram hoje os portugueses de Montreal? Segundo o recenseamento de 1996, o quadro da população portuguesa, em Montreal e arredores, é o seguinte :

Montreal: 24.945

LaSalle : 1.175

Pierrefonds: 1.020

Saint-Léonard: 865

Anjou: 840

Montréal-Nord: 605

Dollard-des-Ormeaux: 415

Pointe-Claire: 355

Saint-Laurent: 355

Outremont: 220

Ile-Bizard: 195

Verdun : 140

Beaconsfield: 140

Côte-St-Luc: 135

Lachine: 100

Kirkland: 90

Westmount: 65

Laval: 5.605

Blainville: 805

Ste-Thérèse: 380

Terrebonne: 290

Brossard: 970

Longueuil: 940

Saint-Hubert: 600

Como podemos notar, a seguir à comunidade de Montreal, a maior comunidade portuguesa é a de Laval. Alguns homens já se tinham fixado em Laval desde 1953.

Pouco depois chamaram as suas famílias e por lá ficaram. Porém, a comunidade cresceu graças ao influxo dos portugueses de Montreal, contando hoje com alguns comércios portugueses, a Associação de Nossa Senhora de Fátima e a Missão Católica de Nossa Senhora de Fátima.


(Publicado no LusoPresse de Montreal em Março de 2001)