artes & letras
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CANTO MATRICIAL





Manuel Carvalho



Já rufam os tambores que anunciam, de lés a lés, a abertura das comemorações do cinquentenário da minha chegada ao Canadá.

Ainda recordo, como se fosse hoje, aquele longínquo dia 13 de Maio de 1953 em que, meio atarantada pelo marulhar das ondas bravas contra o molhe do cais, desembarquei do barco Satúrnia, em Halifax, após viagem sem fim pelos mares profundos das minhas angústias e incertezas.

Esmagada pela imensidão das terras e dos sonhos por desbravar mas também cheia de coragem e urgências, engoli os medos, arregacei as mangas e fazendo das tripas coração, atirei-me de peito aberto aos cornos da vida.

Embrenhei-me pelas florestas enregeladas do Labrador, fecundei os trigais das grandes planícies do Oeste, colhi tomates e morangos nos campos do Sul, moirejei nas barragens do Norte, ergui os arranha-céus das grandes cidades, rasguei estradas e caminhos de ferro, desci ao bojo das minas, zelei pelas mansões dos ricos, tornei-me comerciante, restaurador, experimentei artes mil. E certa alvorada, olhando-me no espelho da memória, vi, com olhos de ver, estas mãos calejadas e os sulcos profundos que me rasgam o rosto e compreendi, com uma ponta de orgulho, confesso, que conquistara o direito inegável de também chamar meu a este país que, com tanto esforço, ajudara a construir e que espero deixar em herança à minha progenitura.


Mas «o que eu andei para aqui chegar! », como cantou um poeta da minha afeição. Nas horas de tristeza, agasalhava-me no xaile negro da saudade e arrancava das entranhas um fado pungente. Nas horas de alegria, que também as tive, enchia o peito e bravejava em rijas e brejeiras desgarradas. Embrieguei-me de vinho, sonhos e solidão. Guardei e divulguei as minhas tradições, abri a alma a novos costumes. Bati-me pela minha língua, balbuciei línguas alheias. Chorei e ri, amaldiçoei e louvei como só os emigrantes e expatriados o sabem fazer.

Entretanto, iam-me nascendo e crescendo filhos e netos, uma prole numerosa que se espalhou do Atlântico ao Pacífico na luta pelo pão-nosso-de-cada-dia. Alguns esqueceram a língua que sorveram com o primeiro leite, atraídos pelo canto de outras sereias e outros paraísos. Outros, pelo contrário, agarraram-se desamparados a mim, temerosos de abrir as asas e partir para novos horizontes. Mas a grande maioria, é esse o meu grande orgulho e a minha grande esperança de dias melhores e mais fecundos, soube escutar e preservar a voz telúrica que os habita e, de raízes fiéis à terra ancestral, têm sabido estender, lá no alto, pelos imensos céus deste novo mundo, vigorosa ramaria que começa, pouco a pouco, a recobrir-se de frondosa folhagem de belos e inesperados matizes.

Quando se reunem em alta algazarra, ao meu redor, como neste ano de festa e confraternização, a todos acolho maternalmente, sem distinções, no calor do meu regaço. Fico, silenciosa e enternecida, a escutar o desfiar do rosário das suas querelas e reconciliações, das suas grandezas e misérias, das suas arrogâncias e humildades, dos seus triunfos e fracassos, das suas alegrias e dores.

Amolece-me a alma quando os pressinto, generosos e atabalhoados na ânsia quase infantil de me encontrar um lugar ao sol neste imenso Canadá multicultural. Esquecidos de que são os nossos passos que traçam o caminho que percorremos. E que quanto mais caminhamos mais nos transformamos, entrelaçamos e caldeamos com as multidões peregrinas que, vindas por outros trilhos, afluem de outros mundos e outras vidas. Sempre assim foi, sempre assim será. É sabedoria velha ciclicamente esquecida e relembrada.

Sentimentalona e amorosa da vida como sempre fui, as faces já gastas pelos anos, ainda se me cobrem de rubor quando me tratam carinhosamente por mãe Comunidade. Cá do fundo do coração, o meu maior desejo – será pedir muito? – é que os ventos lhes corram de feição e que sejam todos muito felizes.