MANUEL CARVALHO


Finalmente, a St-Laurent é nossa



E ra um sonho  antigo ver a Comunidade  Portuguesa  a desfilar  pela St-Laurent.

Impossível, torciam o nariz, incrédulos, os pessimista.  De mau gosto e desprestigiante, sussurravam  os intelectuais de pacotilha. Um desastre, prognosticavam, sarcásticos,  os maledicentes.

Mas, contra ventos e marés, naquela radiosa manhã de Agosto,  o defile  irrompeu Main acima,  num turbilhão de cor, música e alegria.

“Les portugais”, “the portuguese”, sussurrava a multidão. E os aplausos subiam no céu azul como revoadas de pombas brancas. E os rostos estilhaçavam-se  em sor(risos). E os olhos irradiavam fogaréus. E os lábios balbuciavam o nome sagrado: Portugal. E os corações sangravam lágrimas de ternura.  Gente feliz com lágrimas, disse  consagrado escritor português.

Lá no alto, frente ao Parc du Portugal, à sombra do padrão histórico,  houve discursos, danças, música, soltou-se aos quatro ventos a arte de ser português em terras canadianas. Demonstrou-se , sem alaridos, que viemos para ficar, para  nos caldear com as gentes que aqui nos acolheram.  Para misturar sangue, cultura, emoções, esta particular forma de estar e assumir a vida.

De chofre,  espessa nuvem de fumo ergue-se- de  rijo braseiro ali  ateado, por mãos corajosas, na esquina da Marie-Anne com a St-Laurent. E para meu regalo, levado pela brisa, o cheiro a sardinhas assadas, , estendeu os seus tentáculos pela  vizinhança, trepou as paredes dos prédios, dançou com a folhagem das árvores, misturou-se com a multidão que deambulava  por entre as bancadas da feira,  fez fremir  as narinas perturbadas.  Finalmente, alguém ousara  desafiar as leis do medo atávico. Finalmente, alguém ousara quebrar os grilhões invisíveis  da repressão interior. Finalmente, alguém ousara sair das catacumbas dos quintais . Finalmente, alguém ousara sonhar uma St-Laurent onde o odor das sardinhas  assadas se misturasse harmoniosamente, por direito próprio,  com os odores gastronómicos,  até agora reinantes, de outras culturas e outros povos. Finalmente, após esporádicas incursões, ao longo dos anos, alguém sonhara conquistar definitivamente a St-Laurent. Finalmente, a St-Laurent é nossa..

Montreal, Agosto de 2003